Maria Lúcia, vítima de fascistas em BH, tem a coragem que nos falta

Pedagoga vai com criança protestar contra golpe e é expulsa por manifestantes fascistas; esquerda indiferente tem certeza que as coisas não vão piorar?

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)

Observem o vídeo acima. A pedagoga e sindicalista Maria Lúcia Barcelos estava numa manifestação a favor do impeachment, no domingo, em Belo Horizonte. Em sua camiseta branca, uma frase: “Xô, golpe”. É expulsa, quase linchada. E é linchada verbalmente. Os manifestantes de verde e amarelo a xingam de “vagabunda”, “filha da puta”, “lixo”, “petista de merda”.

Pouco antes das agressões, como mostra reportagem do jornal Hoje em Dia, Maria Lúcia estava de mãos dadas com uma menina de uns 4 anos. Sua filha? Não sabemos. O que dá para saber é que, enquanto a polícia retirava a pedagoga do tumulto (sem nenhum esforço de rechaçar os fascistas mais agressivos), a menina não mais lá estava. Terá assistido a tudo aquilo?

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Reprodução – jornal Hoje em Dia

TEMPOS INSANOS

Aos que não conseguem enxergar alguma democracia em nosso país, cabe assinalar que ela se encontra na foto; a ausência dela, no vídeo. E pobre do país que naturaliza cada agressão como essa. Agressão a uma mulher, violência contra uma criança (sim, aquilo pode ter sido traumático), retirada do direito que elas tinham de ir e vir, tudo com aval policial aos que xingam e assediam. Pobre do país que assiste a escaladas fascistas e se mostra distraído.

Não custa lembrar que um fascista pode ser sempre fascista e meio. Em São Paulo, duas mulheres que ousaram ficar com os seios de fora na Avenida Paulista, e teriam ateado fogo numa bandeira do Brasil, foram igualmente ameaçadas por manifestantes mais exaltados – e machistas e intolerantes. Isso que elas eram favoráveis ao impeachment. Os distraídos não percebem que se trata de uma tendência?

E não, a violência praticada contra indígenas, a juventude negra, povos tradicionais não pode ser utilizada como argumento para que se tolere um golpe. Golpes, como tais, parlamentares ou não, levam os Estados a diminuir ainda mais a margem já escassa de direitos dos cidadãos; os mesmos indígenas e jovens negros estarão entre as mais prováveis vítimas de gente que não respeita as regras mais elementares de convivência.

A não ser que esses brasileiros orgulhosos da própria indiferença – talvez inspirados em ideias supostamente revolucionárias – queiram ver o circo pegar fogo. Sentados na sala de jantar, com a boca escancarada cheia de dentes. Enquanto Maria Lúcia peita os fascistas.

A ESQUERDA INDIFERENTE

Escrevo tudo isto também aos que têm ironizado a invocação da palavra “democracia”, por este e outros articulistas, quando nos referimos à necessária defesa do Estado de Direito, e não de uma presidente específica. Como se nos tornássemos petistas por defendê-lo; e como se não soubéssemos que essa democracia está cercada de coerções por todos os lados.

Desprezam a utilização do termo com base no fato de que violações ocorrem, diariamente, em todo o país – um fato. Ora, o caso de Maria Lúcia mostra que, sim, como deveriam ensinar a história e a dialética, tudo pode sempre ser pior. Aqueles que dão de ombros em relação à queda de uma presidente eleita (por mais inepta que ela seja) vivem numa fantasia – a de que nada mudará.

Sempre muda. Pois não existe vácuo na política. Caso aqueles que não têm resquícios de compromissos democráticos – como os usurpadores de plantão – cheguem ao poder, muita coisa como essa pode acontecer. Em escala. A direita não se acanhará em ocupar os espaços – já que parte da esquerda está mais preocupada em passar a mão na cabeça dos black blocs.

A menina com vestidinho e laço de fita (aquela que aparece na foto, mas não no vídeo) talvez preferisse que houvesse mais gente defendendo Maria Lúcia e a democracia – defendendo as filhas de Marias e Clarices. Sem prejuízo de outras causas. Apenas porque dessa causa dependem todas as demais. A democracia é uma criança que não pode ser retirada da foto.

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4 ideias sobre “Maria Lúcia, vítima de fascistas em BH, tem a coragem que nos falta

  1. Por acaso é razoável ir a uma manifestação em que é sabido que há uma turba enfurecida de fascistas, muitos com evidentes problemas psiquiátricos? E levando uma criança?

    A democracia sôfrega que vivemos traz incluído o direito à livre manifestação sim, mas de todos os grupos, e é de praxe, bom senso básico, que na manifestação do outro tu não compareça com um cartaz ou camiseta defendendo o contrário.

    Não há uma manifestação de apoio à presidenta? Seria por acaso razoável que as senhorinhas golpistas façam o mesmo e se enfiem em meio à multidão da CUT? Acha que no atual clima de torcidas organizadas que PT e PSDB alimentam aconteceria algo muito diferente?

    A própria CF/88 solicita que não se evite mais de uma manifestação na mesma hora e local, para evitar exatamente esse tipo de situação.

    Mesmo que a causa seja viciada de coisas absurdas como a defesa de ditadura militar, enquanto não tomarmos vergonha e criminalizarmos a defesa de ditaduras militares, temos que manter sim o bom senso diante dessas multidões. E respeitar a loucura alheia. Que proteste no seu dia quem é a favor do impeachment.
    E vá às ruas no seu dia quem defende o governo. Simples.

    E sobre insanidade, com todo respeito à moça, mas não fica tão atrás dos fanatismo que busca denunciar. Qualquer pessoa com o mínimo de discernimento não faria uma imbecilidade que ela fez. è suicídio. Se quiser virar mártir governista sendo imolada pela turba fascista, que fique à vontade. Mas então não leve a criança!

    • Claro que é razoável. Mais que razoável, é indispensável. Não digo assim, despreparada, não-calçada, não-prevenida. Mas agrupando um número suficiente de pessoas que pensem da mesma forma, previamente,o que não deve ser tão difícil assim em se tratando de Defesa da Democracia, e se deslocando com eles em qualquer direção que seja do espaço público. Claro que pode haver porrada, mas eles também levam. Quem sabe se numa dessas serão dispersados e desbaratados. Quem sabe? Cagaço é que não pode haver num assunto desses. Já bastam os de Lula, PT e Dilma perante Rede Grobo, Carta aos Brasileiros e Omeletes Ana Maria Braga, que estão nos custando muito caro. Sem falar em Henrique Meirelles e Joaquim Levy. À dona Maria Lucia, minhas humildes desculpas por estes nossos “patrícios”, minha suprema vergonha por trazer na minha circulação sangue mineiro. Se São Paulo é o túmulo do Samba, segundo Vinícius, Minas Gerais é e sempre foi, com seu machismo asqueroso e seu conservadorismo reacionário e covarde, o túmulo da Decência.

    • Jason- estive na última manifestação a favor da democracia e contra o golpe e no meio da manifestação, bem perto de mim, estava um senhor embrulhado em uma bandeira do Brasil, vestido de amarelo e a favor do impedimento e ninguém o agrediu. Caminhou o tempo inteiro ao lado do carro de som. Ficamos a observar se alguém iria perturbá-lo mas ninguém o perturbou.

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