Minimizadores do caso Samarco tentam reinventar palavra “tóxico”

leonardomerçon-ultimosrefugios

Defensores da mineradora ignoram definição de toxicidade para amenizar impactos do rompimento da barragem em Mariana; não somente metais pesados têm efeito nocivo

Por Alceu Luís Castilho (@alceucastilho)
Fotos: Herone Fernandes e Leonardo Merçon/ Instituto Últimos Refúgios

Tomemos a definição do Dicionário Houaiss:

“tóxico \cs\
adjetivo e substantivo masculino 

1 que ou o que produz efeitos nocivos no organismo
‹ substância t. › ‹ a cocaína é um t. ›
2 que ou o que contém veneno”

E agora o leitor decidirá: a lama da Samarco que arrasou povoados em Mariana e já chegou ao mar, matando milhares de peixes, aves, algas… é tóxica ou não é tóxica? (Atente: isso independe de conter ou não metais pesados.)

Pois está em curso uma operação para minimizar a catástrofe. O que passa pela definição de que a lama não seria tóxica. Ora, a lama produziu, em si, efeitos nocivos a organismos diversos. Retirou oxigênio da água, asfixiou 11 toneladas de peixes, matou  tartarugas, caranguejos, caramujos, camarões, galinhas, bois, um rio inteiro (ainda que por alguns meses ou anos). Como não seria tóxica?

O Centro de Vigilância Sanitária, ligado à Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo, define como agente tóxico “qualquer substância capaz de produzir um efeito tóxico (nocivo, danoso) num organismo vivo, ocasionando desde alterações bioquímicas, prejuízo de funções biológicas até sua morte”. E o risco tóxico, o que seria? “É a capacidade inerente de uma substância produzir efeitos nocivos num organismo vivo ou ecossistema”.

A Fiocruz informa, em seu site, que não existem substâncias químicas sem toxicidade:. “Não existem substâncias químicas seguras, que não tenham efeitos lesivos ao organismo”. Nada, portanto, de associar o termo apenas à ingestão de metais pesados – como vêm fazendo a empresa e seus defensores. Lembremos que um cigarro possui 4.700 substâncias tóxicas.

A BATALHA DOS EXAMES

A página do Serviço Geológico do Brasil, uma companhia do governo federal, informa: “Novos resultados descartam aumento de metais pesados no Rio Doce”. Ou seja, por esses exames (feitos em apenas 40 coletas), a lama não seria tóxica especificamente em relação a metais pesados: cobre, chumbo e mercúrio, entre outros.

Mas mesmo nesse caso há controvérsias: e o ferro e o manganês? Um laudo encomendado pela própria Vale informa que os níveis das duas substâncias estão acima do recomendado pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT). Ainda que, na descrição feita pela empresa, e logo replicada acriticamente pela imprensa, sem risco para seres humanos.

Ou seja, há ênfase apenas no impacto direto em organismos humanos. Como se as substâncias não fossem tóxicas para outros seres vivos. Sem redução de danos, reduzam-se as palavras.

Diante da minimização, muitos fazem uma pergunta singela: por que, então, a necessidade de barragens? Por um motivo simples: a polpa (a lama de areia e silte combinada com os rejeitos) da mineração tem o efeito tóxico que se viu nas últimas semanas. Mesmo sem metais pesados.

E porque não se trata somente da saúde de humanos, por ingestão ou contato direto; e sim da saúde de ecossistemas inteiros. Afetam a fauna, a flora. E também os humanos. As barragens surgiram, no século 20, porque o material despejado afetava os poços de irrigação e o solo; e os produtores constatavam a diminuição da colheita.

leonardomerçon-ultimosrefugios02

Até aqui nem estamos questionando os testes feitos pela própria empresa. Ou considerando a necessidade de testes que não sejam encomendados pelas partes interessadas. Uma coleta feita em Governador Valadares logo após a catástrofe identificou níveis altíssimos de ferro e manganês. E este pode gerar problemas ósseos, intestinais, ampliar problemas cardíacos.

O Instituto Mineiro de Gestão das Águas fez outros testes e detectou a presença de chumbo, arsênio e cádmio nas águas do Rio Doce, nos dias subsequentes ao rompimento da barragem. Uma das consequências possíveis, câncer. Quem vai dizer que não existem esses riscos (ou que as substâncias não tenham saído da barragem), a própria Samarco? Ou pesquisadores independentes?

UMA HISTÓRIA ALTERNATIVA

A Vale (dona da Samarco, junto com a BHP Billinton, e que também despejou resíduos na barragem rompida) já está até falando que a lama vai ter efeito de adubo no reflorestamento. Ou seja, não somente se minimiza o impacto brutal no ecossistema, como se tem a desfaçatez de apresentar um possível benefício “no reflorestamento”. Mais ou menos como os defensores do agronegócio, que chamam os agrotóxicos de “defensivos”.

Está desde o dia 5 de novembro em curso uma batalha por discursos. As evidências das primeiras semanas começam a ser esquecidas: as fotos dos povoados destruídos, a narrativa – ainda incompleta – sobre as 23 pessoas que morreram, a evidente destruição ambiental. A morte de um rio, a dor dos pescadores (como os das fotos deste artigo, feitas pelo Instituto Últimos Refúgios), agricultores e povos indígenas que se viram sem água. A ameaça aos ecossistemas marinhos.

heronefernandes-ultimosrefugios

E agora começa a investida na reconstrução conveniente dos fatos. Movida a insensibilidade e escárnio em relação às vítimas, todas elas – humanos ou não. Aposta-se na falta de memória e na falta de bom senso para se dizer que o Rio Doce estará restabelecido em cinco meses, como se fosse pouco, e que a lama até vai virar um adubozinho. E nem tinha tanto veneno assim, não é mesmo? Nem se matou diretamente pessoas por ingestão de chumbo.

LEIA MAIS:
Está aberta a temporada de minimização do crime ambiental de Mariana

 

6 ideias sobre “Minimizadores do caso Samarco tentam reinventar palavra “tóxico”

  1. Já era de se esperar que após passados os momentos iniciais após a tragédia de Mariana, as empresas responsáveis e a mídia anti-ética e comprometida apenas com os interesses do grande capital, procurassem minimizar os fatos, e, quem sabe, como já se nota agora, tentar “garimpar” (aqui vale esse termo já que falamos de tragédia provocada por mineradoras) efeitos positivos como a posível, adubação dos solos daquela região. Quanto aos mortos, sejam pessoas, peixes, aves, algas, e outras espécies animais ou vegetais, bem, isso eles jogam para debaixo do tapete da sala onde reina a mais absoluta falta de dignidade e de respeito pela vida e pelo meio ambiente.

  2. Ainda há aqueles que acreditam que este País não seja uma mera e rica colônia. Mas infelizmente a realidade, cada dia mais só vem nos mostrando exatamente isso. Somos sim, uma mera colônia, com um povo apático, completamente dominado e o que é pior admirador e bajulador dos seus senhorios estrangeiros, aos quais até endeusam.
    Triste realidade, mas essa é a mais pura verdade. Senão vejamos, como um triste e lamentável exemplo, o que esta ocorrendo com esta cruel, inacreditável e inaceitável tragédia, que estamos assistindo, completamente incapazes de qualquer reação, por menor que seja.
    Tivemos um crime monstruoso, onde vidas humanas se perderam e uma agressão ambiental jamais vista, onde todo um grande e valiosíssimo RIO, foi total e covardemente assassinado, por uma lama completamente tóxica e mortal, onde nada ficou vivo e nem poderá viver novamente.
    Inacreditavelmente toda a mídia nacional e todas as autoridades, sem exceção, políticas e judiciárias, fingem não ver e nem ter nada com isso e o que é pior, estão até fazendo de tudo para proteger e inocentar a empresa assassina, bem como os seus donos cruéis, gananciosos, inconseqüentes e irresponsáveis.
    Estes crápulas inventam de tudo para se protegerem e se isentarem das culpas. Primeiro inventaram descaradamente, um absurdo terremoto (abalo sísmico), para justificar o rompimento das barragens, depois não revelam de forma alguma, os tipos de materiais tóxicos ali contidos.
    Criminosa, insana e irresponsavelmente, agora já estão até abastecendo as cidades com esta água, imunda, venenosa, cancerígena e letal. Isto sem contar com o que esta maldita lama tóxica e letal, poderá acarretar ao ecossistema marinho, que fatalmente sofrerá as mais cruéis e danosas conseqüências, que talvez jamais venha a se recuperar.
    E tudo isso para que? Só para gerar riquezas para os senhorios, ávidos de lucros, não importando as conseqüências. Lucros esses que só servirão para gerar riquezas para os países dominadores e inconseqüentes, que tanto este povo admira e bajula.
    Como dizia o poeta Cazuza: ‘’Que País é esse?’’ E eu digo mais, parafraseando o poeta: “Que povo é esse, que faz até passeata para proteger à empresa assassina e os seus cruéis e inconseqüêntes algozes?’’
    Ninguém, jamais será sequer molestado, que dirá punido, tal é a IMORAL HIPOCRISIA, reinante na COLÔNIA BRASIL.TRISTE E LAMENTÁVEL FATO.

  3. Esta claro, que esta multinacional, como todas as outras, não estão nem aí, para mais esta tragédia, ocorrida numa das suas meras e ricas colônias, que só servem aliás, para engordar os seus bilionários lucros. Nada mais lhes importando, a não ser retirar as riquezas destes países, onde contam com verdadeiros exércitos de fiéis servidores, que os protegem de todas as formas. Elegem seus fiéis políticos e compram o poder judiciário para os defenderem de qualquer problema. Compram os donos das Mídias, que serão incumbidos de manipular ao povo, como mero objeto de aval, para as ações ilegais, de dilapidar com o patrimônio da COLÔNIA. Assim agem livre e confortavelmente, sem se preocuparem com os acidentes sejam quais forem. Para estes seres inescrupulosos e gananciosos estas catástrofes nada dizem, pois ocorreu lá num fim de mundo, sem qualquer importância. Esta é a mais pura verdade, senão vejamos o que diz esta reportagem do Blog “Anti Nova Ordem Mundial”, da qual ouso reproduzir um ilustrativo parágrafo.
    http://www.anovaordemmundial.com/2015/11/a-lama-da-samarco-e-o-jornalismo-que-nao-da-nome-aos-bois.html#more
    “Primeiro enumeremos os donos. Já se sabe que 50% da Samarco pertence à Vale, a Vale que tirou o Rio Doce de seu nome e nele despejou lama tóxica. A outra metade pertence à anglo-australiana BHP Billiton, uma fusão da australiana Broken Hill Proprietary Company com a inglesa (radicada na África do Sul) Billiton, atuante nas veias abertas do Chile, Colômbia e Peru (onde tomou uma multa ambiental de US$ 77 mil após contaminação por cobre), no Canadá, Reino Unido e nos Estados Unidos, na Argélia, no Paquistão e em Trinidad & Tobago. Já protagonizou na Papua Nova Guiné uma contaminação fluvial histórica. As maiores mineradoras do mundo.”
    Ai esta, meus amigos a verdadeira face destas empresas assassinas sedentas de lucro e riquezas às quais a vida e a ecologia nada importam. Trouxas somos nós, que ficamos brigando e defendendo aos asquerosos e corruptos políticos pertencentes a estas inconseqüentes e desumanas Organizações Capitalistas Multinacionais, que em busca de riquezas fáceis, não medem as conseqüências dos seus atos destrutivos e mortais.

      • Meu nobre amigo jornalista, peço desculpas pelo lápso de atenção, quanto a autoria deste referido texto. Mas revendo ao texto mencionado naquele Blog, realmente lá esta citado, como fonte original de referência, o seu prestimoso Blog. Portanto queira me desculpar e vamos continuar na luta de não deixarmos de forma alguma que esta CATÁSTROFE seja esquecida, de forma alguma.
        Basta de sermos tratados como capaxos e meros cordeirinhos, que engolem e aceitam tudo quanto é desgraça, de forma covarde e sem nenhuma reação. Chega de sermos verdadeiros idiotas, manipulados por essa classe de vermes, que tomaram de assalto a vida desta Nação, escravizada e espoliada, descaradamente, sempre contando com o apoio irrestrito e colaborador daqueles que vendem até a alma, a troco de migalhas.
        Conclamo a todas as pessoas lúcidas e sem torcida ou rancor político, a nunca nos esquecermos desta tragédia anunciada, negligenciada e fatídica. Temos a obrigação moral de não permitir que outros fatos desta magnitude volte a ocorrer e que muito menos, fique impune.
        Hoje, lamentavelmente, deixamos tudo nas mãos sujas, irresponsáveis, inconseqüêntes e assassinas dos políticos inescrupulosos e naturalmente corruptos e estamos vendo, vivendo e morrendo, em conseqüência desta imoral e inaceitável realidade. Temos que mudar isso, urgentemente, pelo bem das gerações futuras.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *